domingo, 17 de abril de 2011

Tempo de verão

Todos dizem apenas que o verão é só mais uma estação do ano, mas eu, desde pequena que sou muito imaginativa, vendo sempre uma realidade alternativa às coisas simples e naturais da vida. Onde as pessoas vêm uma formiga, eu vejo um ser trabalhador que volta a casa depois de um longo dia de trabalho árduo; onde as pessoas vêm uma folha caída no chão, eu vejo um pequeno e seguro abrigo para os insectos que temem a chuva.
A minha descrição do verão é um pequeno e curto sonho de criança que é alimentado todos os anos nessa mesma estação, e para que este possa continuar a crescer tenho de sonhar alto e cada vez mais alto. Mas, finalmente, cá vai a história do verão que eu tenho para contar.
O verão é uma bela e formosa senhora com vestes de luz e cabelos de água, a sua pele é feita das conchas mais brilhantes e mais belas de todos os 7 mares, e seus pés são tão delicados como as brisas secas e calmas de verão. Suas bochechas são tão rosadas como rosas acabadas de desabrochar, seus belos lábios são tão carnudos como duas gotas perfeitas de sangue, e seus olhos são claros como as marés, e estes deixam transparecer a sua alegria e sabedoria de há milhões de anos.
Esta esbelta senhora de longas idades viaja pelo mundo inteiro em menos de um ano trazendo felicidade e sol a todos os seres humanos e animais que neste mundo habitam.
A sua beleza estonteante faz com que os frutos que tinham começado a nascer na Primavera amadureçam de forma a que se tornem docinhos e fazendo com que a nossa boca liberte um ligeiro sorriso numa única dentada.
Todos os anos de praia, eu sou a única que quando mergulha no mar e abre os olhos, vê esta senhora a pentear seus longos cabelos que cobrem o mundo, e apesar de esta estar demasiado abstraída com tudo o que a rodeia, ela sabe que eu a posso ver e sente-se lisonjeada com isso, porque apesar de todos a poderem sentir, eu sou a única que lhe consegue agradecer por isso, num simples gesto, um ligeiro sorriso, que esta mo retribui tornando a água do mar mais límpida.
Quando volto à superfície as minhas amigas olham para mim com espanto por ter sustido a respiração durante tanto tempo, mas eu nunca lhes conto aquilo que vejo.
- Mariana! Acorda para a vida! - chamam-me elas abanando-me até eu acordar.
- Desculpem, estava distraída. - digo eu olhando estupefacta para o oceano e deixando os meus cabelos abanarem ao ritmo da brisa marítima.
- Distraída? Tu estavas completamente a dormir! - responde Inês. Ela e a sua irmã Teresa são muito chegadas apesar da curta diferença de idades.
- Já pedi desculpa. - digo eu olhando para elas.
- Pronto, não dizemos mais nada!
- Desculpem, eu não dormi lá muito bem.
- Não há problema, eu já estou seca, acho que vou voltar para a água. – disse a Leonor, uma das minhas melhores amigas que eu conheço desde que nasci, levantando-se e sacudindo a areia que se tinha agarrado ao seu corpo.
- Eu vou! - respondeu Teresa levantando-se.
- Eu também, esperem por mim! - disse ela tentando levantar-se mas voltando a cair para trás.- Vens? - perguntou-me ela levantando-se por fim com sucesso e dando-me a mão para me ajudar a levantar.
- Claro! - respondi eu com um aceno de cabeça e agarrando-lhe a mão como apoio. Sacudi a areia do meu fato-de-banho ainda húmido e fiz uma pequena corrida para a água, mas antes de entrar, deixei-me cair repentinamente na areia enquanto via as ondas na rebentação. De seguida levanto-me num salto e mergulho suavemente na água. Senti o meu cabelo a libertar-se e a dançar à minha volta. Abri os olhos e estranhamente o verão não se encontrava lá. No seu lugar encontrava-se um golfinho, que nadava ao ritmo das ondas.
Subi á superfície estupefacta com aquilo que vira.
Submergi novamente para ter a certeza daquilo que vira. E surpreendentemente este desaparecera. Nadei até á costa onde depois me deixei cair e cobrir de areia.
- O que se passa? - questionou-me Leonor.
- Nada.- respondi eu abanando a cabeça fazendo a água do meu cabelo escorrer-me pela minha húmida face.- Acho que vou comer qualquer coisa.
- Está bem, nós já lá vamos ter contigo.- respondeu desta vez Inês.
Sacudi a areia e fui-me deitar ao sol a comer uma sandes.
Ainda me encontrava incrédula ao pensar no ser que vira debaixo de água.
Um golfinho tão próximo da costa só poderia estar perdido, pois estes seres marinhos nadam em bando e este, encontrando-se sozinho, poderia estar doente. Geralmente, nessas alturas estes aproximam-se da costa. Com medo que este precisasse de ajuda, levantei-me repentinamente e atirei a minha sandes para a areia. Corri desesperadamente para a água e mergulhei sem pensar duas vezes. Nadei até ao lugar onde o avistara, curiosamente este estava de volta e com um ar triste e medroso tentou afastar-se de mim, depois senti que precisava de voltar à superfície para recuperar o ar, mas este seguira-me.
- Não tenhas medo, não faço mal, quero ajudar. - disse eu tentando acalmá-lo. Nessa altura reparei que a sua barbatana se encontrava gravemente ferida. Nesse momento ele batera-me com a sua cauda, mas era tarde de mais, eu fora picada por uma alforreca que nadava perto de mim sem eu dar conta.
Começei a gritar de sofrimento, mas ninguém me ouvia. Começei a tentar nadar, mas a dor ficava cada vez mais forte e o veneno espalhava-se cada vez mais depressa.
- Socorro! - gemi eu ao golfinho que ainda se encontrava a meu lado.
Fechei os olhos, e quando os voltei a abrir estava sozinha, ele desaparecera, e eu perdia a esperança, mas quando voltei a olhar, ele olhava para mim receoso do que me poderia acontecer se ninguém aparecesse depressa.
Então, ele pôs-se debaixo de mim, mas as suas escamas escorregadias não me permitiam montá-lo. Então, agarrei-me à sua barbatana superior com todas as forças que me restavam. O meu novo amigo nadava o mais rápido comigo agarrada, mesmo com a sua barbatana gravemente ferida, pois este queria que eu chegasse ainda com vida à praia mais do que ele próprio ser salvo.
Eu estava cada vez com o veneno mais alastrado, mas mesmo assim mantinha os olhos abertos. Mas perto da costa, não aguentei mais e deixei-me desmaiar. Vi tudo a desvanecer perante os meus olhos, não mais os conseguia abrir, mas de uma coisa eu me recordo. Assim que cheguei à praia agarrei-me com força um pedaço de coral meio rosado e esponjoso. Quando voltei a acordar estava já no hospital numa maca com suores frios, mas a única coisa pela qual eu perguntava era pelo meu amigo golfinho.
- Tem calma, filha, descansa agora e depois falamos. – disse–me ela aproximando-se da minha maca.
- Para onde me levam?
-Vão curar-te, não tenhas medo.
 E nesse momento voltei a fechar os olhos, pois já não tinha forças para os manter abertos e atentos ao que se passava em meu redor
            Acordei durante a noite numa cama ainda do hospital, estava suada e não respirava correctamente, mas a única coisa em que eu pensava era no meu novo amigo ao qual eu chamara de Salvador, pois se não fosse ele, eu poderia ter morrido no meio do mar. Olhei para a minha mão que ainda segurava o pedaço de coral, e ainda o agarrava com força, o que me lembrou da barbatana de Salvador.
Levantei-me, arranquei todos os fios que tinha agarrados ao meu frágil corpo. E mesmo assim corri até à entrada do hospital. Tentei chamar um táxi, mas nenhum aparecia, então andei até à praia com apenas uma coisa em mente: “salvar o Salvador”.
Perto da praia, o frio gelava-me, mas mesmo assim eu não parava, a fome era maior, pois eu não chegara a acabar o meu almoço, e finalmente a minha fraqueza também me tentava parar, mas nada do que se passava me faria desistir.
Assim que cheguei à praia, subi até ao pontão e andei até ao fim deste, e finalmente comecei a descer algumas rochas e a chamar pelo meu salvador.
Este apareceu já com a barbatana curada e nesse momento eu sorria para ele. Nenhumas palavras foram trocadas entre nós, apenas olhares, mas estes diziam tudo o que seria dito pelas palavras.
- Adeus meu bom amigo. - disse eu quebrando o silêncio.
Deixei-o partir no meio das ondas. Sei que ele vai encontrar a sua família a partir dos seus instintos, e agora que este estava curado, não me preocuparia tanto.
Ele partiu olhando para trás, mas eu sei que ele irá viver aventuras e partilhá-las com o resto da sua família assim que a encontrar.
Derramei uma lágrima apenas vendo-o partir nas ondas, e depois um sorriso que valia por mil palavras, algumas de tristeza, outras de alegria
Dizer adeus é sempre mais difícil do que dizer olá, mas neste caso foi o melhor a fazer, mas todas as noites ainda penso nele e no único gesto que ele fez para me salvar apesar das circunstâncias em que se encontrava.
O verão acabou e as aulas voltaram.
- Então Mariana, o que fizeste durante as férias? - perguntam-me as minha amigas.
- Um bom amigo, um grande amigo que nunca esquecerei. - respondo eu com um brilho no olhar e um sorriso a aparecer-me nos lábios.

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